quinta-feira, abril 20, 2017

Entrevista ao historiador israelita Shlomo Sand: Quando e como é que o povo judeu foi inventado

O historiador Shlomo Sand afirma que a existência das diásporas do Mediterrâneo e da Europa Central é o resultado de antigas conversões ao judaísmo. Para ele, o exílio do povo judeu é um mito, nascido de uma reconstrução a posteriori sem fundamento histórico.

Shlomo Sand nasceu em 1946 em Linz (Áustria) e viveu os dois primeiros anos da sua vida em campos de refugiados judeus na Alemanha. Em 1948 os seus pais emigram para Israel, onde cresceu. Cursou História, tendo começado na Universidade de Telavive e terminado na Escola de Altos Estudos em Ciências Sociais de Paris. Desde 1985 lecciona História Contemporânea na Universidade de Telavive. Publicou em francês «L'Illusion du politique. Georges Sorel et le débat intellectuel 1900 » (La Découverte, 1984), «Georges Sorel en son temps», com J. Julliard (Seuil, 1985), «Le XXe siècle à l'écran» (Seuil, 2004) e «Les mots et la terre. Les intellectuels en Israël» (Fayard, 2006).


Jornal Israelita Haaretz - 21/03/2008

Demolindo uma "Mitologia nacional"


Artigo de Ofri Ilani

Tradução por Atrida

Entre a profusão de heróis nacionais que o povo de Israel produziu ao longo de gerações, a sorte não sorriu a Dahia Al-Kahina que chefiou os Berberes de Aures, na África do Norte. Embora tendo sido uma judia indomável, poucos israelitas ouviram alguma vez o nome desta rainha guerreira que, no século VII da era cristã, unificou várias tribos berberes e chegou mesmo a repelir o exército muçulmano que invadiu o norte de África. A razão poderá estar no facto de Dahia Al-Kahina ter nascido numa tribo berbere convertida (ao judaísmo), ao que parece várias gerações antes do seu nascimento, por volta do século VI.

Segundo o historiador Shlomo Sand, autor do livro «Quando e como é que o povo judeu foi inventado» [Quand et comment le peuple juif a-t-il été inventé?] (aux éditions Resling - em hebraico), a tribo da rainha Dahia Al-Kahina assim como outras tribos do Norte de África convertidas ao judaísmo são a principal origem a partir da qual se desenvolveu o judaísmo sefardita. Esta afirmação, referente às origens dos judeus do Norte de África a partir de tribos locais que foram convertidas – e não a partir de exilados de Jerusalém – é apenas uma componente de uma ampla tese desenvolvida na nova obra de Sand, professor do departamento de História da Universidade de Telavive.

Neste livro, Sand tenta demonstrar que os judeus que vivem hoje em Israel e noutros locais do mundo, não são de forma nenhuma os descendentes do antigo povo que vivia no reino de Judeia na época do primeiro e segundo templo. Eles devem a sua origem, segundo ele, a povos diversos que se converteram ao longo da história em diversos locais da bacia do Mediterrâneo e regiões vizinhas. Não apenas os judeus da África do Norte descenderiam na sua maior parte de pagãos convertidos, mas também os judeus iemenitas (vestígios do reino Himiarita, no sul na península arábica, que se convertera ao judaísmo no século IV), e os judeus Asquenazes da Europa de Leste (refugiados do reino Khazar convertido ao judaísmo no século VIII).

Ao contrário de outros «novos historiadores» que procuraram abalar as convenções da historiografia sionista, Shlomo Sand não se contenta em regressar a 1948 ou aos princípios do sionismo, mas remonta a milhares de anos atrás. Shlomo tenta provar que o povo judeu nunca existiu como um «povo-raça» partilhando uma origem comum, mas que é uma multitude variada de grupos humanos que, em momentos diferentes da história, adoptaram a religião judaica. Segundo Shlomo, para alguns pensadores sionistas, esta concepção mítica dos judeus como um povo antigo conduz a um pensamento verdadeiramente racista: «Existiram na Europa períodos onde, se alguém tivesse declarado que todos os judeus pertenciam a um povo de origem não judia, essa pessoa seria julgada imediatamente como anti-semita. Hoje, se alguém ousa sugerir que aqueles que são considerados judeus no mundo (…) nunca constituíram e não constituem nem um povo nem uma nação, seria imediatamente denunciado como uma pessoa que odeia Israel.»

De acordo com Shlomo Sand, a descrição dos judeus como um povo de exilados, errante e mantendo-se à parte, que «vagueando sobre mares e terras, chegaram ao fim do mundo e que, finalmente, com a chegada do sionismo, fazem meia-volta para retornar em massa à sua terra órfã», esta descrição é necessária a uma «mitologia nacional». Tanto como outros movimentos nacionais na Europa, que revisitaram uma sumptuosa idade de ouro para em seguida, graças a ela, fabricar o seu passado heróico – por exemplo, a Grécia clássica ou as tribos teutónicas – a fim de provar que eles existiam há muito, «tal como, os primeiros brotos do nacionalismo judeu se viraram para essa luz intensa cuja fonte era o reino mitológico de David.»

Mas então, quando é que o povo judeu foi realmente inventado, segundo a tese de Sand? «Na Alemanha do século dezanove, num determinado momento, os intelectuais de origem judaica, influenciados pelo carácter 'volkiste' do nacionalismo alemão, atribuíram-se a missão de fabricar um povo "retrospectivamente", com o desejo de criar uma nação judaica moderna. A partir do historiador Heinrich Graetz, os intelectuais judeus começam a delinear a história do judaísmo como a história de um povo que tinha um carácter nacional, que se tornou um povo errante e que finalmente fez meia-volta para regressar à sua pátria.»



Entrevista a Shlomo Sand conduzida por Ofri Ilani:

Ofri: De facto, o essencial do seu livro não trata da invenção do povo judeu pelo nacionalismo moderno mas da questão de saber de onde vêm os judeus.

Shlomo: O meu projecto inicial consistia na análise de uma categoria específica de materiais historiográficos modernos e examinar como foi inventada a ficção do povo judeu. Mas assim que comecei a confrontar as fontes históricas deparei-me com contradições. E foi isso que me impeliu: embrenhei-me no trabalho sem saber a que conclusões chegaria. Analisei documentos originais de modo a examinar a atitude de autores antigos - aquilo que haviam escrito a propósito da conversão.

Shlomo Sand, historiador do século XX, tinha até agora estudado a história intelectual da França moderna (no seu livro “L'intellectuel, la vérité et le pouvoir“ [O intelectual, a verdade e o poder], Am Oved ed. , 2000 - em hebraico), e a relação entre o cinema e a história política («Le cinéma comme Histoire» ["O cinema como História] Am Oved, 2002 – em hebraico). De forma pouco comum para historiadores de profissão, ele debruça-se, no seu novo livro, sobre os períodos que ele nunca tinha estudado - geralmente apoiando-se em pesquisadores anteriores que têm avançado com posições não ortodoxas sobre as origens dos judeus.


Ofri: Especialistas da história do povo judeu afirmam que você se ocupa de temas que não compreende e que se baseia em autores que não consegue ler no texto original.

Shlomo: É um facto que sou um historiador da França e da Europa, e não da Antiguidade. Sabia que assim que me ocupasse de períodos antigos como esses, ficaria exposto a críticas assassinas vindas de historiadores especializados nesses campos de estudo. Mas disse a mim próprio que não me poderia apoiar apenas em material historiográfico moderno sem examinar os factos que esse material descreve. Se não o tivesse feito eu próprio, teria sido necessário esperar o tempo de uma geração. Se tivesse continuado a trabalhar sobre França, talvez tivesse obtido uma cátedra na universidade e uma glória provincial. Mas tinha decidido renunciar à glória.

«Após o povo ter sido exilado à força da sua própria terra, permaneceu-lhe fiel em todos os países da sua dispersão e não cessou de orar e esperar o seu regresso à terra para aí restaurar a sua liberdade política»: eis o que afirma o preâmbulo da Declaração de Independência [de Israel]. É também a citação que abre o terceiro capítulo do livro de Shlomo Sand "A Invenção da Diáspora". De acordo com Sand, o exílio do povo judeu da sua própria terra nunca teve lugar.


«O paradigma supremo do exílio era necessário para que se construísse uma memória de longo prazo na qual um povo-raça imaginário e exilado é colocado na continuação directa do "Povo do Livro" que o antecedeu», Sand explica. Sob a influência de outros historiadores que se debruçaram nos últimos tempos sobre esta questão, ele afirma que o exílio do povo judeu é, na origem, um mito cristão, que descreve o exílio como uma punição divina castigando os judeus pelo pecado de terem rejeitado o evangelho cristão.

Comecei a procurar livros sobre o exílio – um acontecimento fundador na História Judaica - quase como o genocídio; mas, para meu grande espanto, descobri que não existia literatura sobre o tema. O motivo é que ninguém exilou um povo desta terra. Os Romanos não deportaram povos e não o poderiam ter feito mesmo que o pretendessem. Não tinham nem comboios nem camiões para poder deportar populações inteiras. Uma logística dessas não existiu antes do século XX. Foi, de facto, a partir daí que surgiu o meu livro: da compreensão que a sociedade judaica não tinha sido dispersa nem exilada.


Ofri: Se o povo não foi exilado, está na realidade a afirmar que os verdadeiros descendentes dos habitantes do reino da Judeia são os Palestinianos.

Shlomo: Nenhuma população se mantém pura ao longo de um período de milhares de anos. Mas a possibilidade de que os Palestinianos sejam os descendentes do antigo povo da Judeia são bastante maiores que a possibilidade que você ou eu [ambos judeus] o sejamos. Os primeiros sionistas, até à insurreição árabe [1936-1939], sabiam que não existira nenhum exílio e que os Palestinianos eram os descendentes dos habitantes da região. Eles sabiam que os camponeses não partem de um local a não ser que sejam expulsos. Até Yitzhak Ben Zvi, o segundo presidente do Estado de Israel, escreveu em 1929 que "a grande maioria dos fellahs (camponeses árabes) não são originários dos invasores árabes mas, muito antes disso, dos fellahs judeus que constituíam a maioria da região".


Ofri: E como é que milhões de judeus apareceram à volta do Mediterrâneo?

Shlomo: O povo não se disseminou, foi a religião judaica que se propagou. O judaísmo era uma religião prosélita (que convertia outras pessoas à sua religião). Contrariamente ao que se pensa, no judaísmo antigo exista uma vontade muito forte de converter. Os Hasmoneanos foram os primeiros a começar a criar grande número de judeus por meio de conversões massivas, sob a influência do helenismo. São estas conversões, desde a revolta dos Hasmoneanos até à de Bar Kochba, que prepararam o terreno para a posterior difusão massiva do Cristianismo. Após o triunfo do Cristianismo, no século IV, o movimento de conversão ao judaísmo foi travado no mundo cristão e houve uma diminuição brutal do número de judeus. Pode-se supor que muitos judeus convertidos na zona mediterrânica se tenham tornado cristãos. Então, o judaísmo começa a difundir-se noutras regiões pagãs - por exemplo, no Iémen e no norte de África. Se isto não tivesse sucedido - se o judaísmo não se tivesse continuado a converter no mundo pagão – teria ficado uma religião completamente marginal, se é que não teria mesmo desaparecido.


Ofri: Como é que chegou à conclusão que os judeus do Norte de África são descendentes de Berberes convertidos?

Shlomo: Interroguei-me por que razão comunidades judaicas tão importantes podiam ter surgido em Espanha. Reparei então que Tariq Ibn-Ziyad, comandante supremo dos muçulmanos que invadiram a Espanha, era berbere e que a maioria dos seus soldados eram também berberes. O reino berbere judeu de Dahia Al-Kahina fora vencido apenas 15 anos antes. E a verdade é que há diversas fontes cristãs que declaram que muitos de entre os invasores de Espanha eram convertidos ao judaísmo. A origem da grande comunidade judaica de Espanha eram estes soldados berberes convertidos ao judaísmo.

Segundo Sand, o contributo demográfico mais decisivo para a população judaica no mundo deu-se na sequência da conversão do reino khazar - o vasto império estabelecido na Idade Média nas estepes circundantes do rio Volga e que, no auge do seu poder, dominava desde a actual Geórgia até Kiev. No século VIII os reis khazares adoptaram a religião judaica e fizeram do hebreu a língua escrita do reino. A partir do século X o reino estava já enfraquecido e no século XIII foi derrotado em toda a linha pelos invasores mongóis e o destino da sua população judaica perde-se então nas brumas.


Shlomo Sand revisita a hipótese, já avançada por historiadores dos séculos XIX e XX, segundo a qual os khazares convertidos ao judaísmo seriam a principal origem das comunidades judaicas da Europa de Leste: «No início do século XX há uma grande concentração de judeus na Europa de Leste; só na Polónia são três milhões», afirma. «A historiografia sionista pretende que a sua origem provém da comunidade judaica mais antiga da Alemanha, mas essa historiografia não explica por que motivo o reduzido número de judeus originários da Europa Ocidental - de Mainz e Worms - pôde fundar o povo yiddish da Europa de Leste; na verdade, os judeus da Europa de Leste são uma mistura de khazares e eslavos rechaçados para Ocidente


Ofri: Se os judeus da Europa de Leste não são originários da Alemanha porque é que falavam yiddish, que é uma língua germânica?

Shlomo: Os judeus, a leste, formavam um grupo que dependia da burguesia alemã e foi dessa forma que adoptaram palavras alemãs. Aqui, apoio-me nas investigações do linguista Paul Wechsler, da Universidade de Telavive, que demonstrou que não existe ligação etimológica entre a língua judaica alemã da Idade Média e o yiddish. O Rabi Yitzhak Bar Levinson, já em 1928, dizia que a antiga língua dos judeus não era o yiddish. Até Ben Tzion Dinour, pai da historiografia israelita, não tinha problemas em apontar os khazares como a origem dos judeus da Europa de Leste, descrevendo a Khazaria como a "mãe das comunidades de exílio" na Europa de Leste. No entanto, desde 1967 que qualquer pessoa que fale dos khazares como sendo os antepassados dos judeus da Europa de Leste é encarado como bizarro e delirante.


Ofri: Na sua opinião, porque é que a ideia de uma origem khazar é tão ameaçadora?

Shlomo: É evidente que o receio se prende com a contestação do direito histórico sobre esta terra [Israel]. Revelar que os judeus não vieram da Judeia parece reduzir a legitimidade da nossa presença aqui. Desde o início do período de descolonização, os colonos não podem vir simplesmente dizer: «viemos, vencemos e agora somos daqui» - como também afirmaram os americanos, os brancos da África do Sul e os australianos. Existe um receio profundo que seja posta em causa o nosso direito à existência.


Ofri: E esse receio não tem fundamento?

Shlomo: Não. Não creio que o mito histórico do exílio e da errância seja a origem da minha legitimidade em estar aqui [em Israel]. Para mim é indiferente saber que sou de origem khazar. Não receio este abalar da nossa existência pois penso que a natureza do Estado de Israel ameaça de forma bem mais grave a sua existência. O que pode fundar a nossa existência aqui não são direitos históricos mitológicos mas o facto de virmos a estabelecer aqui uma sociedade aberta, uma sociedade do conjunto de todos os cidadãos israelitas.


Ofri: No fundo, afirma que não existe um povo judeu.

Shlomo: Não reconheço um povo judeu internacional. Reconheço um "povo yiddich" que existia na Europa de Leste, que não é uma nação mas onde é possível ver uma civilização yiddish com uma cultura popular moderna. Penso que o nacionalismo judeu se desenvolveu a partir desta base yiddish. Reconheço igualmente a existência de uma nação israelita e não contesto o seu direito à soberania. Mas o sionismo, tal como o nacionalismo árabe ao longo dos anos, não estão preparados para o reconhecer.

Do ponto de vista do sionismo, este Estado não pertence aos seus cidadãos, mas sim ao povo judeu. Reconheço uma definição de Nação: um grupo humano que pretende viver de forma soberana. Mas a maioria dos judeus em todo o mundo não quer viver no Estado de Israel, apesar de nada os impedir a que o façam. Assim, não se pode ver neles uma nação.



Ofri: O que é que existe de perigoso no facto de os judeus imaginarem que pertencem a um só povo? Por que razão isso seria errado?

Shlomo: No discurso israelita sobre as suas raízes existe uma dose de perversão. É um discurso etnocêntrico, biológico, genético. Mas Israel não tem existência como estado judaico: se Israel não se desenvolve e se transforma numa sociedade aberta e multicultural, teremos um Kosovo na Galileia. A consciência de um direito sobre este local deve ser mais flexível e variada e se eu contribuí com este livro para que eu próprio e os meus filhos possamos viver aqui com os outros, neste Estado, numa situação mais igualitária, terei feito a minha parte.

Devemos começar a trabalhar duramente para transformar este local que é o nosso numa república israelita, onde nem a origem étnica nem a crença serão pertinentes à luz da lei. Quem conhece as jovens elites entre os árabes de Israel pode constatar que eles não concordam em viver num Estado que proclama que não é o seu. Se fosse palestiniano rebelar-me-ia contra um tal Estado, mas é também como israelita que me rebelo contra este Estado.



Ofri: A questão que se põe é saber se, para chegar a tais conclusões, seria necessário ir até ao reino dos Khazars e ao Reino Himiarita.

Shlomo: Não escondo que sinto um grande incómodo em viver numa sociedade em que os princípios nacionais que a dirigem são perigosos e que esse incómodo serviu de motor para a minha pesquisa. Sou cidadão deste país mas também sou historiador e, enquanto historiador, tenho obrigação de escrever a História e de examinar os textos. Foi isso que fiz.


Ofri: Se o mito do sionismo é o mito do povo judeu que retornou do exílio a esta terra, qual será o mito do Estado que imagina?

Shlomo: Um mito de futuro é, a meu ver, preferível a mitologias do passado e de se fechar em si próprio. Para os americanos, e também para os europeus de hoje, o que justifica a existência de uma Nação é a promessa de uma sociedade aberta, avançada e opulenta. Os condimentos israelitas existem mas há que lhes acrescentar, por exemplo, festas que reúnam todos os israelitas. Reduzir um pouco os dias comemorativos e acrescentar dias consagrados ao futuro. E também, por exemplo, acrescentar uma hora para comemorar a Nakba (literalmente, a "catástrofe" – o termo palestiniano para aquilo que aconteceu quando Israel foi fundado], entre o Dia do Senhor e o Dia da Independência.
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segunda-feira, abril 10, 2017

Como foi engendrada a fraude do consenso de 97% de cientistas que acreditam que o aquecimento global tem origem humana



Tradução minha.


John Cook é professor assistente de pesquisa no Centro de Comunicação de Mudanças Climáticas da George Mason University. John Cook foi co-autor dos livros de faculdade Alterações Climáticas: "Examining the Facts" [Examinando os Factos] com o professor Daniel Bedford da Weber State University. Foi também foi co-autor do livro "Climate Change Science: A Modern Synthesis" [Ciência da Mudança Climática: uma Síntese Moderna] e do livro "Climate Change Denial: Heads in the Sand" [Negação da Mudança Climática: Cabeças enterradas na Areia].

Em 2013, foi o autor principal de um artigo premiado analisando o consenso científico sobre as mudanças climáticas, que foi realçado pelo presidente Obama e pelo primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron. Em 2015, John Cook desenvolveu um Curso Online sobre negacionismo da ciência climática com o Global Change Institute da Universidade de Queensland.


Quantificar o consenso sobre o aquecimento global antropogénico (causado pelo homem) na literatura científica – [Anthropogenic Global Warming – AGW])

John Cook e outros – Publicado a 15 de Maio de 2013 • 2013 IOP Publishing Ltd


Abstract [Sumário]

"Analisámos a evolução do consenso científico sobre o aquecimento global antropogénico [causado pelo homem] (AGW) na literatura científica revista por outros especialistas [peer-reviewed], examinando 11.944 resumos climáticos de 1991 a 2011 que correspondem aos tópicos "mudança climática global" ou "aquecimento global". Constatámos que 66,4% dos resumos não expressaram posição sobre o AGW, 32,6% endossaram [defenderam] o AGW, 0,7% rejeitaram o AGW e 0,3% não tinham a certeza sobre a causa do aquecimento global. Entre os resumos que expressaram uma posição sobre o AGW, 97,1% endossaram a posição de consenso de que os seres humanos estão a causar o aquecimento global."

"Numa segunda fase deste estudo, convidámos os autores a classificar os seus próprios artigos. Em comparação com as classificações dos resumos, uma percentagem menor de artigos auto-classificados não expressou posição sobre o AGW (35,5%). Entre os documentos auto-classificados que expressam uma posição sobre o AGW, 97,2% endossaram o consenso. Tanto para as avaliações dos resumos assim como para as auto-avaliações dos autores, a percentagem de endossos entre os artigos que expressam uma posição sobre AGW aumentou marginalmente ao longo do tempo. A nossa análise indica que o número de artigos que rejeitam o consenso sobre AGW é uma proporção extremamente pequena da pesquisa publicada."


Houve uma série de críticas levantadas contra o artigo de John Cook desde o início, como a classificação incorrecta de muitos artigos, o facto de que a grande maioria dos artigos diziam respeito à mitigação ou ao impacto e não às causas do aquecimento, e à natureza subjectiva das avaliações.

Mas há uma questão absolutamente fundamental, que destrói toda a credibilidade que o artigo pudesse ter tido. Na pesquisa de Cook, cada artigo foi classificado numa de sete categorias. No site da Skeptical Science, existe uma ferramenta de procura para identificar que artigos é que pertenciam a cada categoria.




Como pode ser visto no exemplo mais abaixo, para o Endorsement (Aprovação) Nível 1, apenas 65 artigos são identificados como "quantificando o AGW como 50% +" [aquecimento global antropogénico superior a 50%].

Excluindo o "No Positions" (sem Posição / Opinião), há 4.011 artigos classificados no total, por isso chegamos à conclusão de que o número de artigos concordando que "os seres humanos são a principal causa do aquecimento global recente" é apenas um minúsculo 1,6%, longe dos 97% reivindicados.

Como foi salientado por Lawrence Solomon, em relação ao anterior exercício de 97%, muito poucos cientistas discordariam que os seres humanos têm algum efeito sobre o clima, nem que seja apenas o aquecimento urbano ou o desmatamento.

O consenso, que Cook tenta divulgar, vai, como todos sabemos, muito mais longe. Se houver dúvidas sobre isso, o próprio Cook esclarece as questões na introdução do seu artigo:

“Nós examinámos uma grande amostra da literatura científica sobre CC global (Climate Change Global – Mudança Climática Global), publicada durante um período de 21 anos, a fim de determinar o nível de consenso científico de que é muito provável que seja a actividade humana que causa a maior parte do GW actual (aquecimento global).

E o co-autor de Cook, Mark Richardson da Universidade de Reading, leva a mentira ainda mais longe nesta entrevista no Instituto de Física:

"Queremos que nossos cientistas respondam às nossas perguntas, e há muitas questões interessantes na ciência do clima. Uma deles é: estamos a causar o aquecimento global? Encontrámos mais de 4.000 estudos escritos por 10.000 cientistas que expressaram uma posição sobre isso, e 97 por cento disseram que o aquecimento recente é feito principalmente pelo homem. "

É claro que, desde o princípio, Cook e seus colegas estavam empenhados em fornecer um "consenso" atraente que poderiam vender à comunicação social, e que seria escolhido por políticos e outros indivíduos do establishment, independentemente do que as provas realmente confirmassem.

A realidade é radicalmente diferente. Depois de pesquisar através de 11.944 artigos científicos, escritos ao longo de 20 anos, tudo o que eles conseguiram foi descobrir 65 artigos que apoiavam o suposto consenso.



Ou seja, dos 11.944 resumos climáticos que correspondiam aos tópicos "mudança climática global" ou "aquecimento global", temos que:

7.930 resumos - 66,4% não referiram o AGW - Aquecimento Global Antropogénico.

65 resumos - 0,5% do total estão na categoria 1 – Concordância explícita com o aquecimento global antropogénico (AGW) com quantificação. Afirma explicitamente que os humanos são a causa principal do recente aquecimento global.

934 resumos - 7,8% do total estão na categoria 2 – Concordância explícita com o aquecimento global antropogénico (AGW) sem quantificação. Afirma explicitamente que os humanos estão a causar aquecimento global ou refere o aquecimento global antropogénico / mudança climática como um facto reconhecido. Mas nada dizem sobre a percentagem de aquecimento produzido pelo homem.

2.933 resumos - 24,6% do total estão na categoria 3 – Concordância implícita com o aquecimento global antropogénico (AGW). Implica que os humanos estão a causar aquecimento global. Por exemplo, a investigação assume que as emissões de gás com efeito de estufa causam aquecimento sem afirmar explicitamente que a causa é de origem humana.

78 resumos - 0,7% rejeitaram o AGW e 40 resumos - 0,3% não tinham a certeza sobre a causa do aquecimento global.

É claro que quase todos os cientistas concordam que existe uma contribuição humana maior do que 0%, ou que os seres humanos podem ser uma causa - embora modesta - de alguma mudança climática. Assim, combinando as taxas de endosso muito altas das categorias 2 e 3 (que até mesmo os mais cépticos reconhecem, como concordam que os seres humanos contribuem para a mudança climática em algum valor), com a taxa de endosso insignificantemente pequena para a categoria 1 (apenas 65 resumos), e excluindo as muitas centenas de artigos que foram publicados por cientistas questionando a teoria, Cook et al. (2013) foram finalmente capazes de proclamar que 97% dos cientistas acreditam que as mudanças climáticas desde 1950 foram principalmente causados por seres humanos.


As sete categorias:



(a) – Nível de concordância com o aquecimento global antropogénico (AGW).

(b) – Descrição.

(c) – Exemplo.



1 – (a) – Concordância explícita com o aquecimento global antropogénico (AGW) com quantificação.

1 – (b) - Afirma explicitamente que os humanos são a causa principal do recente aquecimento global.

1 – (c) – “O aquecimento global durante o século XX é principalmente causado pela crescente concentração de gás de efeito de estufa particularmente desde os finais dos anos 1980s.”


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2 – (a) – Concordância explícita com o aquecimento global antropogénico (AGW) sem quantificação.

2 – (b) - Afirma explicitamente que os humanos estão a causar aquecimento global ou refere o aquecimento global antropogénico / mudança climática como um facto reconhecido

2 – (c) – “Emissões de uma gama ampla de gases de efeito de estufa com tempos de vida variáveis contribuem para a mudança climática global.”

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3 – (a) – Concordância implícita com o aquecimento global antropogénico (AGW).

3 – (b) – Implica que os humanos estão a causar aquecimento global. Por exemplo, a investigação assume que as emissões de gás com efeito de estufa causam aquecimento sem afirmar explicitamente que a causa é de origem humana.

3 – (c) – “…a captura do carbono no solo é importante para mitigar a mudança climática global.”


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4(a) – (a) – Sem posição sobre o assunto.

4(a) – (b) – Não aborda ou menciona a causa do aquecimento global.

4(a) – (c) – “…a captura do carbono no solo é importante para mitigar a mudança climática global.”


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4(b) – (a) – Incerteza.

4(b) – (b) – Expressa a posição de que o papel humano no aquecimento global recente é incerto / indefinido.

4(b) – (c) – “…Enquanto a extensão do aquecimento global induzida é inconclusiva…”


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5 – (a) – Rejeição implícita do aquecimento global antropogénico (AGW)..

5 – (b) – Sugere que o homem tem um impacto mínimo sobre o aquecimento global sem o afirmar o afirmar explicitamente. Por exemplo, propondo causas naturais como a principal causa do aquecimento global.

5 – (c) – “…algures entre a maior parte e a totalidade do aquecimento de século XX resulta provavelmente de causas naturais de acordo com os resultados …”


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6 – (a) – Rejeição explícita do aquecimento global antropogénico (AGW) sem quantificação.

6 – (b) – Minimiza explicitamente ou rejeita que o homem esteja a causar o aquecimento global.

6 – (c) – “…o registo global das temperaturas fornece reduzido apoio à visão catastrófica do efeito de estufa”


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7 – (a) – Rejeição explícita do aquecimento global antropogénico (AGW) com quantificação.

7 – (b) – Afirma explicitamente que o homem causa menos de metade do aquecimento global.

7 – (c) – “A contribuição humana para a quantidade de CO2 na atmosfera e o aumento de temperatura é insignificante com outras fontes de dióxido de carbono”

quarta-feira, abril 05, 2017

Mia Couto -- "Há quem tenha medo que o medo acabe"

Para fabricar armas é preciso fabricar inimigos… Para produzir inimigos é imperioso sustentar fantasmas… As armas têm medo de que acabem as guerras…





https://youtu.be/iTbQDNsNkQo

sexta-feira, março 31, 2017

John F. Kennedy - discurso contra as Sociedades Secretas que dominam a América

A 27 de Abril de 1961, perante as Associações de Jornais Americanos em Nova Iorque, John F. Kennedy fez o seguinte discurso acusando as sociedades secretas que dominam a América:





Excertos:

(...) A palavra "segredo" é repugnante numa sociedade aberta e livre, e nós como povo somos intrinsecamente e historicamente contra as sociedades secretas, juramentos secretos e procedimentos secretos. Decidimos há muito que os perigos do excessivo e injustificado encobrimento de factos relevantes é mais grave do que os perigos que são citados para o justificar.

(...) Porque estamos confrontados em todo o mundo por uma conspiração monolítica e cruel que se apoia principalmente em acções encobertas para expandir a sua esfera de influência, em infiltração em vez de invasão, em subversão em vez de eleições, em intimidação em vez da livre escolha, em guerrilha a coberto da noite em vez de exércitos à luz do dia.

(...) Os seus planos são ocultos, não anunciados. Os seus erros são encobertos e não tornados públicos. Os seus dissidentes são silenciados e não elogiados. Nenhum gasto é questionado, nenhum rumor é publicado, nenhum segredo é revelado.


https://youtu.be/ZwYQ79oUW2A

quinta-feira, março 23, 2017

22/3/2017 - Mais um atentado terrorista islâmico em Londres (desta vez, com atropelamentos e facadas)…



O Globo / 22/03/2017

Atentado em Londres: Foto mostra faca usada por terrorista

LONDRES — Segundo a polícia, um terrorista usou um carro para avançar contra várias pessoas na Ponte de Westminster. Em seguida, ao chegar na frente do Parlamento, o terrorista saiu do veículo e esfaqueou um policial, que morreu. Vestido de preto e armado com duas longas facas, o suspeito agia sozinho e foi baleado no local. Pelo menos cinco pessoas morreram e 40 ficaram feridas no ataque, que chocou a capital britânica.


Daesh reinvindica ataque em Londres

O grupo jihadista do Daesh reinvidica o ataque em Londres. Björn Stritzel, jornalista do Bild, partilhou na sua conta de Twitter a declaração do grupo terrorista.

"Um soldado do Daesh realizou o ataque, respondendo a um apelo para atacar cidadãos de estados da coligação [uma referência aos países que lutam contra o Daesh]", lê-se na declaração partilhada pelo grupo através da sua agência de propaganda.




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A espantosa coincidência acontecida no atentado
terrorista islâmico em Londres em 7/7/2005

Mais um atentado terrorista islâmico aconteceu ontem em Londres. Mas relembremos a extraordinária coincidência que se deu no atentado terrorista islâmico em Londres de 7 de Julho de 2005. O Diário de Notícias afirmava:

«Aquilo que todos os britânicos temiam aconteceu no dia 7 de Julho de 2005. Ao início da manhã, três bombas explodiram na rede de metro e num autocarro de Londres, fazendo mais de meia centena de mortos e pelo menos sete centenas de feridos.»

«Na origem daqueles que foram os piores atentados no Reino Unido desde Lockerbie, em 1988, estiveram quatro extremistas islâmicos que actuaram como bombistas suicidas. Alguns deles tinham estado recentemente a receber instruções em madrassas paquistanesas. Alguns dias mais tarde, a 21 de Julho, outros extremistas tentaram repetir o ataque. Foram mal sucedidos e acabaram presos, uns em Londres, outros em Birmingham, mas também em Roma, na Itália, à luz do mandado de captura europeu.»


Peter Power

O diálogo seguinte teve lugar na tarde do dia dos atentados (7 de Julho de 2005) na rádio BBC 5.

O repórter da BBC entrevistou Peter Power, Director Chefe da empresa Visor Consultants, que se define a si própria como uma empresa de consultoria para a “gestão de crises”. Power é um ex-funcionário da Scotland Yard:

PETER POWER: Às nove e meia da manhã estávamos efectivamente a realizar um exercício, utilizando mais de mil pessoas, em Londres, exercício esse baseado na hipótese de acontecerem explosões simultâneas de bombas, precisamente nas estações de metro onde elas aconteceram esta manhã, por isso ainda estou estupefacto.

BBC: Sejamos claros, você estava e efectuar um exercício para testar se estavam à altura de um acontecimento destes, e ele [o atentado] aconteceu enquanto faziam o exercício?

PETER POWER: Exactamente, e foi cerca das nove e meia da manhã. Nós planeámos isto para uma empresa, que por razões óbvias não vou revelar o nome, mas eles estão a ouvir e vão sabê-lo. Estava numa sala cheia de gestores de crises e, em menos de cinco minutos, chegámos à conclusão que aquilo era real, e portanto passámos dos procedimentos de exercícios de crise para uma situação real.



segunda-feira, março 20, 2017

"Teoria da Conspiração" – paranóia irracional e infundada ou uma arma retórica utilizada pela elite do poder para evitar oposição ou dissidência...


O atentado bombista de Bolonha

A Operação Gladio consistiu numa operação secreta americana na Europa Ocidental que recorreu a redes clandestinas ligadas à NATO, à CIA e aos serviços secretos da Europa Ocidental durante o período da Guerra Fria, chamadas células «stay-behind». Implantadas em 16 países da Europa Ocidental, essas células visavam (supostamente) deter a ameaça de uma ocupação pelo bloco do Leste e estavam sempre prontas para ser activadas em caso de invasão pelas forças do Pacto de Varsóvia. A mais famosa foi a rede italiana Gladio.

A rede clandestina internacional englobava o grupo dos países europeus que pertenciam à Nato: Bélgica, Dinamarca, França, Alemanha, Grécia, Itália, Luxemburgo, Holanda, Noruega, Portugal, Espanha e Turquia, bem como alguns países neutrais como a Áustria, a Finlândia, a Suécia e a Suíça.

No entanto, o seu verdadeiro objectivo era espalhar o terror e criar um clima de tensão permanente na Europa Ocidental. Entre os muitos actos de terrorismo que lhes são atribuídos, destacam-se:


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A expressão "Teoria da Conspiração" é amplamente reconhecida como possuindo uma forte carga negativa. É frequentemente usada como um acto de violência retórica e uma maneira de descartar uma suspeita razoável como paranóia irracional. Por exemplo, a elite dominante: banqueiros, empresários e administradores poderosos, políticos, etc., utilizam-na para escarnecer e descartar alegações contra eles, e como uma arma retórica para evitar oposição ou dissidência.

Rotular uma tese como sendo uma "Teoria da Conspiração" fá-la parecer menos credível baseado numa visão estereotipada de teorias de conspiração como paranóicas e infundadas.

A maioria das pessoas não pode resistir a obter os detalhes sobre as últimas teorias da conspiração, não importa o quão exageradas possam parecer. Ao mesmo tempo, muitas pessoas denunciam rapidamente qualquer teoria da conspiração como falsa... e, muitas vezes, como antipatriótica ou simplesmente ridícula. Convém, contudo, que não nos esqueçamos de todos os milhares de conspirações de Wall Street, como as fraudes e extorsões cometidas por Bernie Madoff e muitos outros, entre tantos outros crimes de conspiração.

Teoria da conspiração é uma expressão que originalmente era uma descrição neutra para qualquer alegação de conspiração civil, criminal ou política. No entanto, esta expressão chegou ao ponto de se referir quase exclusivamente a qualquer teoria marginal que explique um acontecimento histórico ou actual como resultado de uma maquinação secreta por conspiradores de poder e astúcia quase sobre-humanos. Conspirar significa "união de duas ou mais pessoas num acordo secreto para praticar um ato ilícito ou imoral ou usar tais meios para realizar um fim lícito". A expressão "teoria da conspiração" é frequentemente usada por estudiosos e na cultura popular para identificar operações secretas militares, bancárias, ou acções políticas destinadas a roubar poder, dinheiro ou liberdade ao "povo".

Para muitos, as teorias da conspiração fazem parte da natureza humana. Nem todas as pessoas neste mundo são honestas, trabalhadoras e verdadeiras sobre as suas intenções. Certamente todos podemos concordar com isso. Então, como é que a expressão "teoria da conspiração" foi agrupada com ficção, fantasia e folclore?

Os cépticos são essenciais para alcançar uma visão objectiva da realidade. No entanto, o cepticismo não é o mesmo que fortalecer a história oficial. Na realidade, uma teoria da conspiração pode ser considerada como uma alternativa à história oficial ou "mainstream" dos acontecimentos. Portanto, quando os cépticos tentam ridicularizar uma teoria da conspiração usando a história oficial como um meio de provar que a conspiração está errada, estão na realidade, apenas a reforçar a visão "mainstream" original da história e, não estão de facto a ser cépticos. Isto não é cepticismo, é apenas uma maneira conveniente para o ponto de vista da elite do poder ser sempre visto como a versão correcta.



Na verdade, é comum que "artigos que desmontam mitos" escolham teorias de conspiração muito marginais e sem grandes adeptos. Isto, por seu lado, faz com que todas as conspirações sobre um assunto pareçam dementes. A revista “Skeptics” e a “Popular Mechanics”, entre muitas outras, fizeram isso mesmo com o 11 de Setembro. Referiram-se apenas a menos de 10% das muitas teorias de conspiração diferentes sobre os acontecimentos do 11 de Setembro e escolheram as menos populares. Na verdade, eles escolheram a parte marginal, os pontos altamente improváveis de que apenas algumas pessoas falavam. Isto foi usado como a "investigação final" para se considerar as teorias da conspiração.

De facto, se as pessoas decidirem examinar as teorias da conspiração, na sua grande maioria vão imaginar que ponderar sobre uma conspiração está associado à loucura e à paranóia. Alguns sites sugerem que isso é como uma doença. Também não é surpreendente ver tantas pessoas na Internet a escrever sobre teorias de conspiração num tom condescendente, utilizando geralmente palavras como "excêntricos" ou "malucos". É frequente que um "perito" afirme que "para que estas conspirações sejam verdadeiras, seriam necessárias centenas, senão milhares das pessoas envolvidas. Não é concebível.”

É extremamente estranho que o pressuposto se situe em milhares de participantes numa conspiração. É difícil acreditar em qualquer conspiração envolvendo mais do que um punhado de pessoas, mas o facto é que houve conspirações neste mundo, comprovadas e não inventadas, que envolveram centenas de pessoas. Não é uma questão de opinião, é uma questão de facto.

Outro aspecto a considerar: já repararam que se a conspiração envolve interesses poderosos com capacidade de subornar, ameaçar ou manipular grandes instituições (como a máfia, grandes corporações ou o governo), então não acham estranho quando pessoas usam o argumento dessas instituições como o "contra-argumento" credível "? Ou seja, se estamos a discutir uma conspiração sobre a máfia e lemos um artigo que foi escrito pela máfia a desmascarar essa conspiração, não é necessário ser um génio para olhar para esse artigo com sério criticismo e desconfiança. É o caso de muitas conspirações.

Embora o cinismo inteligente possa ser certamente saudável, contudo, algumas das maiores descobertas de todos os tempos foram inicialmente recebidas (muitas vezes de forma virulenta) como teorias de conspiração blasfemas – pense-se na revelação de que a Terra não era o centro do universo, ou que mundo não era plano, mas sim redondo.

Seguem-se algumas (entre centenas) dessas teorias de conspiração modernas mais chocantes que se revelaram verdadeiras após investigação profunda. Algumas, através de audiências do Congresso (americano), outras através de jornalismo de investigação. Muitas delas, no entanto, foram simplesmente admitidas pelos envolvidos em notícias originais e credíveis sobre o assunto, bem como em documentários.

Há uns anos, o Canal História trouxe a lume, apresentando provas bastante consistentes, uma exposição do terrorismo da NATO, a CIA e dos Serviços Secretos da Europa Ocidental contra cidadãos europeus em solo do velho continente nos anos 50, 60 e 70. Os atentados mais famosos foram os levados a cabo na Bélgica, na Alemanha e ainda os que ficaram conhecidos como Operação Gládio na Itália.

A NATO, a CIA e os Serviços Secretos da Europa Ocidental atribuíram os atentados a grupos radicais europeus: o «Nuclei Armati Rivoluzionari» e as «Brigadas Vermelhas» italianos, o «Nationalsozialistischer Untergrund» e o Grupo «Baader-Meinhof» alemães, o «Projekt 26» da extrema-direita suíça, etc.





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Operação Northwoods: No início da década de 1960, os líderes militares norte-americanos elaboraram planos para angariar apoio público para uma guerra contra Cuba, de forma a expulsar Fidel Castro do poder. Os planos incluíam cometer actos de terrorismo em cidades americanas, matando pessoas inocentes e soldados norte-americanos, fazer explodir um navio americano, assassinar emigrados cubanos, afundar barcos de refugiados cubanos e sequestrar aviões. Os planos foram aprovados pelos Chefes de Estado-maior, mas foram rejeitados pela liderança civil, e mantidos em segredo durante quase 40 anos.

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Incidente do Golfo de Tonkin: O incidente do Golfo de Tonkin foi o falso pretexto em que se baseou a Administração Lyndon B. Johnson para intervir directamente no Vietname numa guerra não declarada que se prolongou por mais de uma década provocando o maior desastre humano e ambiental da história desde a II Guerra Mundial.

sexta-feira, março 17, 2017

A razão pela qual os Estados Unidos estão constantemente em guerra…

O Negócio do Armamento e o Complexo Militar-Industrial Norte-Americano

Empresas cujo negócio é produzir e vender (ao próprio país e aos outros) material de guerra: porta-aviões, cruzadores, submarinos, caças, bombardeiros, mísseis, bombas, drones, tanques, minas, metralhadoras, balas, etc., tudo farão para criar um clima de guerra permanente. Engendram inimigos, inventam ameaças, forjam agressões...


Foi um Presidente dos Estados Unidos da América, que era também um militar de carreira, quem primeiro utilizou a expressão «complexo militar-industrial» em 1961, no seu discurso de despedida após 8 anos na Presidência. As palavras do General Eisenhower são seguramente fruto da sua experiência directa nas mais altas esferas do poder militar e político dos EUA. Após relatar a crescente e enorme influência da estrutura militar e de grandes grupos económicos nas esferas do poder, afirmava Eisenhower:

«Nas esferas da governação, devemos proteger-nos contra a aquisição de uma influência indesejada, procurada ou não, por parte do complexo militar-industrial. Existe, e permanecerá, o potencial para um surto desastroso de poder mal concentrado. Não devemos nunca permitir que o peso desta conjugação ameace as nossas liberdades ou o processo democrático. Não devemos partir do pressuposto de que tudo esteja garantido.»




https://youtu.be/luEIV6q1pxI

terça-feira, março 14, 2017

Pierre Lévy - A Internet vai acabar com os políticos e instituir a Democracia Directa



Pierre Lévy

UM "CHAT" COM PIERRE LÉVY

Eduardo Veras/Agência RBS - 23/05/2000

Texto em português do Brasil


Num futuro não muito distante, as fronteiras territoriais serão abolidas e ninguém mais vai precisar de líderes. A democracia estará disseminada pelo globo, e a humanidade viverá sob um único governo planetário. Tudo graças à rede mundial de computadores, a Internet. Pelo menos é o que espera o pensador francês Pierre Lévy, 43 anos, tido como o mais optimista dos filósofos europeus contemporâneos. Em sua quinta ou sexta visita ao Brasil (ele perdeu a conta), o autor de A Inteligência Colectiva realiza uma série de conferências sobre cibercultura. Nesta segunda-feira, pela manhã, em Porto Alegre, ele concedeu esta entrevista para a Agência RBS.


Agência RBS – O Sr. diz que a Internet criou um espaço democrático, em que mais gente tem acesso à informação e maior chance de se manifestar. Mas nem todo mundo tem acesso à Internet. Isso não acabaria aumentando a distância entre pobres e ricos, por exemplo?

Pierre Lévy – Os que têm acesso à Internet estão conectados com a inteligência colectiva, todos os conhecimentos possíveis e todas as pessoas, todos os grupos de discussão. É algo vivo e muito democrático. Uma comunicação horizontal, não como a do jornal, do rádio ou da TV, que é vertical. Quem participa do movimento da cibercultura vive num universo cada vez mais democrático. Os que não participam estão obviamente excluídos. Isso é muito inquietante. A boa notícia é que há um aumento do número de conexões. A Internet é o sistema de comunicação que se reproduziu mais rapidamente em toda a história dos sistemas de comunicação. Há 10 anos, havia menos de 1% do planeta conectado. Hoje, em certos países, na Escandinávia, 80% da população está conectada. Em certos Estados norte-americanos, já se ultrapassou 50%.


Agência RBS – Em países pobres é bem diferente.

Lévy – Os dois países do mundo em que o aumento de conexões é mais forte são o Brasil e a China. Você não pode ser impaciente. Já é extraordinária a rapidez com que tudo isso vem ocorrendo. Antes de a Internet chegar a todo mundo, é preciso tempo. Se você pensar que o alfabeto foi inventado há 3 mil anos e somente depois de alguns séculos a maioria da humanidade passou a ler...


Agência RBS – O Sr. acha que vivemos um momento tão importante quanto o do advento da imprensa?

Lévy – Mais importante. Quando se inventou a imprensa, o resultado mais importante foi talvez a criação da comunidade científica, graças aos livros e revistas que traziam números correctos, desenhos correctos. Com a imprensa, a humanidade pôde acumular conhecimento. Os sábios puderam se comunicar uns com os outros. O problema da memória foi resolvido. Os homens puderam se concentrar sobre a observação e a experimentação. Hoje, a participação activa não está mais limitada a um pequeno grupo, a comunidade científica. Todas as pessoas podem participar dessa inteligência colectiva. É uma escala maior. O resultado provavelmente em uma dezena de anos será o fim das fronteiras nacionais, um governo planetário, uma nova forma de democracia, com participação mais directa.


Agência RBS – Não haveria mais os líderes, as pessoas que comandam?

LévyNo futuro, todo mundo vai comandar. Vão acabar as pessoas que comandam.


Agência RBS – É uma utopia.

Lévy – Sim. É uma utopia. Se você houvesse dito no início do século 18 que em dois séculos haveria o sufrágio universal na maioria dos países do mundo, diriam que você estava louco. A cada salto no sistema de comunicação, na inteligência colectiva da humanidade, se tem mais liberdade.


Agência RBS – O Sr. acredita que o advento da Web chega a afectar a construção do pensamento do homem contemporâneo?

Lévy – Isso já começou. As pessoas hoje não aprendem a contar como contavam antes da calculadora. O uso que se faz da memória é completamente diferente. Temos todas as informações disponíveis na Internet. Não precisamos mais saber as coisas de cor. Os instrumentos de percepção se tornaram colectivos. Do Canadá, posso saber o que se passa em Porto Alegre. Posso olhar por tudo, pelo interior do corpo humano, imagens médicas etc. Isso transforma totalmente nossa percepção do mundo.


Agência RBS – Isso muda a vida até de quem não tem acesso à Internet?

Lévy – Sim. Se muda todo o funcionamento da sociedade, muda também a sociedade para aquele que não está conectado.


Agência RBS – Como o Sr. vê o que poderíamos chamar de mau uso que se faz da Internet? A pornografia infantil, por exemplo.

Lévy – A Internet é uma espécie de projecção de tudo que há no espírito humano. No espírito humano, o sexo ocupa uma parte muito grande. É algo biológico. Se não fôssemos obcecados por sexo, não nos reproduziríamos. Temos uma certa agressividade. Se não tivéssemos, a espécie humana teria desaparecido. Essa agressividade nos serviu muito na época pré-histórica. Hoje, é preciso sublimar essa agressividade, assim como se faz com a sexualidade. Podemos sublimar a sexualidade no amor, por exemplo. Mas digamos que o instinto bruto permanece. Os comportamentos agressivos acabam se manifestando. O ciúme, os maus sentimentos que existem no espírito humano também vão aparecer na Internet. É um espaço de pensamento e comunicação em que não há censura. O que é interessante é que há menos hipocrisia.
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